|
Muitas vezes confunde-se empreendedorismo com pequenas e médias empresas (PME). É mesmo frequente encontrar-se em muitas business schools centros especializados em small business and entrepreneurship, mas também há outras escolas que têm as PME separadas do empreendedorismo. Em Portugal também muita gente confunde os dois conceitos. Era bom que assim fosse, pois as PME representam cerca de 98% das empresas na economia portuguesa e isso então seria significado de empreendedorismo. Mas não é assim. As PME não são necessariamente inovadoras e empreendedoras.
A confusão pode surgir porque o empreendedorismo é também encarado pela prática de criar novas empresas. Nessa perspectiva, as empresas efectivamente tendem a começar pequenas. É o caso da Microsoft. Mas Bill Gates continua empreendedor e a Microsoft também, apesar da dimensão multinacional. Uma área de investigação que me parece actualmente com grande dinâmica no meio académico e interesse para a economia é a do corporate entrepreneurship. Trata-se de perceber a forma como se cria e desenvolve o espírito empresarial nas empresas de maior dimensão. É sabido que as grandes empresas tendem a burocratizar-se e que isso tende a tolher a inovação, a criatividade e, necessariamente, o empreendedorismo. Mas há empresas de grande dimensão que mantêm essa capacidade de inovação e empreendedorismo que se reflecte no seu crescimento e criação de emprego. As empresas com estas características de crescimento rápido são apelidadas de "gazelas".
Empreender significa tentar, experimentar, decidir-se a fazer alguma coisa, a pôr em execução. Portanto, empreendedorismo é acção, realização de ideias e objectivos, em que o sucesso delas depende também da sua inovação e adaptação às necessidades concretas da situação. Por exemplo, lançar um produto significa concebê-lo de acordo com as necessidades dos clientes e desenvolver as tarefas de produção e comercialização do mesmo. Mas empreendedorismo é também criar uma organização sem fins lucrativos que possa contribuir para a redução do sofrimento no mundo. Mas também pode ser tomar a iniciativa e ser capaz de eliminar a burocracia no Estado ou empenhar-se na mudança e melhoria de um determinado processo. E também pode ser criar uma associação desportiva ou um clube desportivo com o objectivo de ser campeão nacional ou simplesmente para dar empenho e interesse pela vida aos jovens de um bairro que de outro modo poderiam enveredar por actividades perniciosas para si e para a sociedade.
Por isso, o empreendedorismo pode ser visto em todos os sectores da sociedade - nas empresas, na política, no desporto, nas organizações não governamentais.
Uma medida que frequentemente se usa na sociedade para medir o empreendedorismo é o número de empresas criadas e dissolvidas. E, nessa matéria, os últimos anos evidenciam uma certa crise de empreendedorismo: a taxa de criação de empresas caiu de uma média que era de cerca de 11% para 6% em 2004 e a taxa de dissolução de sociedades aumentou de 1,6% em 2000 para 3,9%, segundo o Anuário Estatístico de Portugal, do INE. O gap entre criação e dissolução de empresas passou nos últimos cinco anos de 9,4% para 2,1%. C
João Carvalho das Neves
Professor catedrático do ISEG |